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Entrevista com David Cronenberg

Entrevista concedida a Thom Ernst para a www.toromagazine.com

Muitos cineastas que, como você, conseguiram superar as expectativas das pessoas apresentando idéias novas e desafiadoras às suas platéias, na medida em que se tornam mais aceitos podem descobrir que seu talento perdeu intensidade. Mas você parece capaz de continuar a desafiar seu público. O que ainda o inspira?

O medo. Uma das razões pelas quais dirigi uma ópera, e um dos motivos pelos quais quis ser curador de uma exposição sobre Andy Warhol na Galeria de Arte de Ontário, foi a vontade de me assustar. Eu não queria me tornar acomodado demais, queria fazer coisas que nunca tinha feito antes. Acredito que, em certo ponto de sua carreira, você decide se vai se acomodar ou se ainda não está pronto para isso. Você não quer a versão artística dos “chinelos e cachimbo”. Eu acho que é por aí.
A empreitada artística ainda me estimula, ainda é extremamente desafiadora, e parte disso está naquele medo: o medo de fazer algo no qual você sabe que pode fracassar, e talvez até se tornar motivo de piada. Por exemplo, o ambiente artístico é muito coeso, bem definido, com sua própria cultura, seus heróis, seus antagonismos e suas hostilidades, além de uma base crítica bem desenvolvida. E, para mim, entrar nesse mundo e dizer “bom, eu tenho algo a oferecer com essa exposição sobre Andy Warhol”, na verdade, é constrangedor. E foi somente porque o pessoal da Galeria de Arte de Ontário pensou que eu podia fazê-lo, que eu encontrei a coragem. Algo semelhante aconteceu com a ópera, pois esse mundo também é assim. Eu nunca dirigi teatro, muito menos ópera, e por isso a dificuldade foi duas ou três vezes maior. Você tem o espetáculo, tem a música, tem o canto e o diálogo. É muito difícil. Mas também penso que foi perfeito que A mosca, a ópera que eu dirigi baseada no meu próprio filme, com música de Howard Shore, tenha estreado em Paris e que depois tenha ido para Los Angeles, pois é uma dicotomia ótima para mim.

O medo é um elemento frequentemente usado nos seus filmes. Há algo no medo que possa nos levar a ter mais controle sobre nós mesmos?

Bom, você diz que eu uso o medo em meus filmes, mas realmente eu não o uso, é ele que me usa. Nunca senti que eu fizesse parte daquele tipo de mitologia sobre Hitchcock, que diz que ele como diretor manipularia a sua platéia como se fossem marionetes: ele puxaria suas cordas e os faria pular, contorcer-se, rir, chorar e gritar a seu bel-prazer. Mas, no meu caso, nunca foi assim. Eu fazia essas coisas comigo mesmo, durante a rodagem do filme eu fazia um tipo de pequena viagem através da metafísica, da filosofia, da psicologia e tudo o mais. Então eu mesmo me assustava, convidando depois a platéia para se juntar a mim e ver quais seriam as reações de cada um. Essa é uma abordagem bastante diferente daquela que se refere a uma espécie de controlmeister, um mestre do controle ou um manipulador. Pois essa realmente nunca foi a minha abordagem com relação a fazer filmes

Hitchcock prestou um desserviço a si mesmo quando ele fez aquele comentário, não acha?

Sim, porque ele era um cineasta bem mais interessante do que poderíamos imaginar a partir dessa maneira de ele se apresentar. Mas eu penso que era alguém que gostava de ter tudo sob seu controle, e queria que pensassem que não havia outras contribuições no seu cinema. É claro que, agora, muito de quem era Hitchcock como pessoa se evidência em seus filmes, e isso os torna bem mais interessantes do que seriam caso ele fosse o manipulador de platéias que dizia ser.

Existe uma lógica subjacente à exposição de platéias à violência ou a momentos de grande desconforto?

A arte sempre envolveu sexo e violência. Eu até gostaria de poder dizer que fui o primeiro a colocar os dois juntos num filme, mas nós temos quatro mil anos de criações artísticas que envolvem sexo e violência. Porque somente nos revelamos quando somos levados aos extremos do que somos e do que fazemos. Então baixamos a nossa guarda e o interior vem à tona, tanto de maneira literal como figurada, e começamos a ver o que realmente somos. Na verdade, é uma exploração da condição humana. Obviamente que esse não é o único caminho através do qual isso pode ser feito; como sabemos, existem peças e filmes que são somente verbais, não físicos, e mesmo assim pode haver uma incrível violência mental que é revelada. É o que acontece nas peças de Harold Pinter, para mencionar apenas um exemplo recente de um artista maravilhoso que perdemos.
Existe violência de muitos tipos, não só física. Mas quando pensamos em cinema, a violência física se ajusta muito bem, às vezes até bem demais. Talvez seja pela própria natureza dos filmes, da edição e da montagem, além do sofisticado trabalho de câmeras e do uso do corpo humano. Quando você é um cineasta, a maior parte do que você fotografa é o corpo humano, e isso permite explorar a violência de uma maneira que a pintura ou o romance não podem fazê-lo.
O lado ruim desse ajuste tão confortável entre sexo, violência e cinema, é que isso pode e tornar um clichê. Reduzido a algo corriqueiro e banal, pode deixar as pessoas insensíveis pela sua própria freqüência ou pelo excesso, deixando de conferir esse poder instantâneo ao cineasta. Portanto, é preciso ser bom nisso, ser inteligente. Você deve ser um bom cineasta para saber usar esse artifício de uma maneira verdadeiramente artística e criativa. E, ainda, o uso de gráficos e imagens gerados por computador tem tornado a violência quase monumental cada vez mais acessível, na medida em que é cada vez mais barato fazer isso. No entanto, há certos filmes — não falarei quais são esses filmes, mas me refiro a grandes produções de Hollywood do tipo “campeão de bilheteria”— que têm somente cenas intermináveis de carnificina de diversas variedades. Agora não só é possível destruir seres humanos, mas também prédios e cidades e até planetas inteiros com grande facilidade. Mas se não existir nada além desse movimento, se for só energia cinética, isso pode se tornar chato. Eu não diria que isso pode se transformar numa ameaça social, porque não acredito nisso, mas sim acho que pode ser uma ameaça para o cinema, porque você se torna capaz de insensibilizar a sua platéia até atingir um ponto de completa indiferença. E isso, com certeza, para o artista é a pior coisa que pode acontecer.

A batalha entre censores e o cineasta é uma luta que nunca vai acabar?

Sim, é inevitável porque a relação da arte com a sociedade é muito instável, e é assim como deve ser. Se você é um freudiano, esse seria um bom tipo de paradigma: que a arte apela para o inconsciente, para aquilo que é suprimido e reprimido. Mas a civilização toda é uma forma de repressão no paradigma freudiano, o que faz com que as duas estejam sempre em conflito. Contudo, ao mesmo tempo existe uma necessidade de arte que parte da sociedade, seja como catarse ou como uma válvula de escape, ou somente como uma necessidade humana de entender aquilo que não é permitido pela sociedade e, mesmo assim, é expresso. Também é claro que depende do tipo de sociedade, pois cada uma é diferente e tem seus próprios tipos de repressão. Mas existe uma aliança bastante instável entre a arte e a sociedade e, portanto, entre o artista e as fontes que podem vir a censurá-lo.

Como você acredita que é a platéia de Cronenberg.

Realmente, não sei dizer.

Então você não faz idéia de quem é que está sentando no escuro assistindo a seus filmes?

Não. Ou seja, eu encontro fãs que conversam comigo, e você esperaria que fossem talvez um monte de maníacos e psicóticos por causa dos meus filmes, mas na verdade eles são os fãs mais doces do mundo. Eu adoro meus fãs, mas é claro que eles não são a minha única platéia. Aliás, eu não quero só isso, quero uma platéia mais ampla que o tipo de pessoa que meio que se especializa em mim, que focaliza somente minha obra. Eu sempre me surpreendo com o tipo de pessoa que gosta dos meus filmes. E também me espanto com os filmes que mencionam como seus favoritos. É bastante esclarecedor. Quando a gente já possui certo volume de trabalho e as pessoas chegam e dizem “eu gosto deste filme”, e de repente esse talvez tenha sido o primeiro e nem eu mesmo sei ao certo se ainda gosto ou não, então eu olho para a pessoa e penso: “será que você não gostou de nenhum dos outros?”. Não há muita explicação para isso, o que faz sentido pelo fato de que é muito subjetiva a reação que cada um tem diante de uma obra. Quando alguém chega perto de mim e está prestes a dizer “eu gosto mesmo do que você faz”, e então diz “Gêmeos foi o meu favorito”, ou então Crash ou Scanners ou meus primeiros filmes de terror, nunca sei realmente qual deles cada um vai apontar. É um exercício interessante tentar descobrir qual é o favorito de cada pessoa.

Disseram-me que os cineastas, em geral, não gostam de ser comparados com outros diretores, mas quando você afirmava agora que muitas pessoas dizem gostar dos seus primeiros filmes de terror, fiquei pensando naqueles que se aproximam de Woody Allen e lhe perguntam: “por que você não volta a fazer comédias?”.

Mais uma vez, é uma questão de evolução. Se você sempre faz a mesma coisa, vai acabar entediado e vai terminar entediando também a platéia. Por isso, há sempre um desejo de... é mais que um desejo, aliás, é algo natural: seus interesses mudam ao mesmo tempo em que a sua vida muda, sua própria perspectiva sobre as coisas vai se transformando. Bob Dylan disse uma vez que ele não poderia se imaginar escrevendo agora as mesmas músicas pelas quais ficou famoso. Ele diz não saber de onde elas vieram, e não conseguiria repeti-las agora. É a mais pura verdade, e todos nós temos de alguma maneira essa experiência. Ás vezes somos forçados a pensar sobre isso e a contemplar a possibilidade de fazer mais uma vez algo que já fizemos, quando alguém diz “queremos que você faça um remake de Calafrios”, por exemplo, ou de Scanners ou de seja lá o que for. Mas eu não conseguiria fazê-los de novo.

Mas você fez um remake de A mosca.

É diferente. Eu não estava fazendo um remake de um filme meu. A mosca original foi encantador e interessante, mas não foi uma obra de arte. Eu me senti assim porque a descoberta do DNA, e de tudo mais, me levaria a fazer um filme que seria bem diferente do anterior e que não incomodaria os aficionados pelo primeiro filme. Na época, as pessoas me perguntavam: “você vai pedir a Vincent Price que faça uma aparição?”, e eu de fato fiz uma pequena entrevista no rádio com ele sobre isso. Mas eu respondi que não, de jeito nenhum. Porque quando isso se transforma em um filme sobre outros filmes, quando se torna nostalgia, corre o risco de ser algo retrô e isso destruiria a potência do filme. Esse seria um elemento bastante subversivo do tipo errado num remake. E também imagino que Vincent Price odiaria o meu filme. Eu não sei qual foi a verdadeira reação dele diante de A mosca, mas ele foi muito gentil comigo nessa entrevista por telefone que fizemos, muito amável e um verdadeiro cavalheiro.

Minha percepção sobre ele é exatamente essa: um cavalheiro bastante gentil e amável.

Imagino que ele ficaria meio incomodado com a violência extrema do meu filme, e talvez com a sexualidade também. Eu acredito que a geração dele – embora seja horrível rotular -, especialmente conhecendo o tipo de pessoa que ele era (e eu cheguei a conhecê-lo um pouco), enfim, creio que ele não iria gostar muito desses aspectos do meu filme.

Existe algum tema recorrente, que você se sinta compelido a continuar explorando?

Eu realmente não penso em filmes como sendo “temas”. Acredito que eles podem ser uma ferramenta analítica, podem se tornar um instrumento crítico, mas não penso que isso faça parte do processo criativo. Nunca me digo algo como: “agora vou explorar o tema da identidade”. Claro que consigo entender quando alguém diz: “o tema da identidade perpassa todos os seus filmes”. Eu consigo entender, estudei literatura e poderia até ter sido um crítico literário ou cinematográfico, talvez. Quero dizer, eu consigo fazer esse exercício, mas a criação não começa por aí. Um filme não vem de algo abstrato como um tema. Para resumir, então, a resposta é que não se trata de um tema, é geralmente algo muito mais físico ou visual ou humano que algo abstrato como uma idéia.